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HISTORIAR N

«Para suportar a sua própria história, cada um acrescenta-lhe um pouco de lenda.» Marcel Jouhandeau

HISTORIAR N

«Para suportar a sua própria história, cada um acrescenta-lhe um pouco de lenda.» Marcel Jouhandeau

CRISTÃOS E MOUROS NA PENÍNSULA

 

À medida que a ocupação muçulmana da Península se estendia para norte, os nobres Visigodos que resistiram refugiaram-se mais as suas gentes, nas Astúrias.
Aí reuniram à sua volta as populações cristãs descontentes e daí partiu o  movimento de Reconquista, marcado pela vitória de Pelágio, na Batalha de Covadonga  em 722.
Com o tempo, depois de muitos combates, recuperaram vários territórios que transformaram em novos Reinos Cristãos. Com avanços e recuos, foram empurrando para sul os muçulmanos, até à tomada definitiva em 1492 do ultimo bastião mouro na península: O califado de Granada.
Por cá as coisas tinham-se resolvido bem mais cedo,  em 1249 com a conquista definitiva  de Faro e Silves, Portugal definiu bem cedo as suas fronteiras. Foi mesmo a primeira nação europeia a fazê-lo.
 É, no entanto, errado reduzir a presença Árabe na Península e o movimento da Reconquista Cristã, apenas a um tempo de conflitos encarniçados e permanentes entre os dois povos. Se assim fosse, nem a presença muçulmana, nem sua influência seriam tão duradouras num continente, que lhes era, todo ele hostil. Na verdade, para além das ambições de conquista, por parte nos nobres visigodos, e sobretudo, fora do espaço dogmático da Igreja Cristã, que não tolerava a perda para os “infiéis” de bens e influência, havia um mundo de pacífico relacionamento entre os dois povos e religiões. Aliás as diferenças religiosas desapareciam quase por magia quando se tratava de combater o inimigo comum. Eram frequentes as alianças que reis cristãos faziam com os mouros sempre que tinham problemas com os seus rivais.
De facto o alargamento territorial dos diferentes reinos penínsulares não se fez sempre à custa de terras mouras. Muitas vezes eram os cristãos a disputarem fronteiras entre si
Equando isso acontecia dava sempre jeito ter à mão aliados de ocasião, como eram os mouros. Por sua vez os mouros faziam o mesmo...
Esqueçam as batalhas épicas, por que se as houve foram muito poucas. Esqueçam uma guerra religiosa que por cá só os padres e a aristocracia guerreira e as suas gentes alimentavam. Eram as escaramuças do costume, combatia-se por terras e bens. Localmente, vila a vila, território a território.
Entretanto, na maior parte do tempo, as gentes conviviam, misturavam-se e iam esbatendo antagonismos. Na maior parte dos casos , respeitaram-se os acordos de paz , feitos desde o ínício entre mouros e cristãos . Os períodos de convivência pacífica entre os dois povos foram de facto bem mais frequentes e significativos, que os episódios de violência que os opuseram.
 
 
Os Moçárabes, cristãos convertidos aos modos e costumes árabes mas que mantiveram a sua religião, atestam bem este facto. . Portadores de uma cultura híbrida, os Moçarabes misturavam na sua arte e costumes, aspectos de ambas as civilizações. De resto, as populações peninsulares não guardavam do feudalismo dos tempos visigóticos boas memórias. O servilismo, a insegurança e a pobreza não eram boas recordações. A aceitação da nova realidade, passados os primeiros tempos, não foi, por isso, particularmente dolorosa. Apesar de tudo as conversões não foram muitas. Para os dois povos, a religião permaneceu sempre como o último reduto de uma identidade. Algo de que não se abdica ou negoceia.
Foram ainda as invasões árabes que arrancaram do isolamento e das trevas, o mundo feudal peninsular. A agricultura ,a metalurgia a arquitetura a astronomia a medicina a matemática  nunca mais foram as mesmas na península.
No seu percurso expansionista, os Árabes assimilaram, sintetizaram e aperfeiçoaram as técnicas e os conhecimentos mais avançados do seu tempo. Entre estes, incluíam-se os provenientes da China, Índia e Pérsia, prontamente espalhados por todo o império islâmico. Da astronomia à medicina, passando pela matemática, e pela geografia, a cultura árabe espelhava o refinamento e a especialização que a ciência da época tinha atingido.
 
Com isso, muito ganharam os povos peninsulares e também o mundo.
Da índia trouxeram e fizeram circular por todo o Islão, a noção do nada, do zero. Coisas que por cá , pela Europa devedora da herança romana ,eram desconhecidas. Verdadeiras novidades. Daí, do vale do Indo, vieram também os algarismos , que os Árabes nos deram a conhecer. A nós e a todo o mundo. Com os Persas, aprenderam a conhecer melhor os céus e os astros.Em contacto com os chineses e japoneses conheceram e mostraram ao resto do” mundo conhecido” novas medicinas”. E também a pólvora e o papel. Em todo este trajecto expansionista os árabes, desenvolveram extraordinariamente, ciências, que da cartografia à navegação nos foram de grande utilidade na época dos descobrimentos: os mapas e roteiros de que os navegadores portugueses mais tarde se serviram …
  
O conhecimento dos astros, dos mares e muito mais. E claro, o astrolábio e a bússola, tal como a caravela que os portugueses, criaram, adaptaram ou aperfeiçoaram. Quase tudo feito de heranças, romanas e árabes, que soubemos sintetizar e a que juntamos o nosso próprio génio ou talento quando se tratou de atingir um fim: Ir mais além porque o que cá havia não chegava, E ainda hoje o fazemos. Parece não haver remédio...