Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

HISTORIAR N

«Para suportar a sua própria história, cada um acrescenta-lhe um pouco de lenda.» Marcel Jouhandeau

HISTORIAR N

«Para suportar a sua própria história, cada um acrescenta-lhe um pouco de lenda.» Marcel Jouhandeau

A PESTE NEGRA

 

O séc. XIV  foi um período marcado por sucessivas crises que, por toda a Europa, semearam a fome, a doença, a guerra e a revolta. Mas foi também um período prenunciador de grandes mudanças políticas, económicas e sociais. 
Em Portugal, esta crise manifestou-se principalmente a partir de finais de 1348, ano em que a Peste Negra atinge e devasta o reino, matando em menos de um ano mais de um terço da população portuguesa. Pelo menos, já que muitos sustentam ter a peste vitimado mais de metade da nossa população. Não se conhecem números exactos, mas sabe-se que a doença  foi contraída e rapidamente disseminada pelos guerreiros turcos infectados durante o cerco à Crimeia, região onde o mal  era endémico.  
 
Uma vez contaminados e enfraquecidos, os cavaleiros regressavam às suas terras de origem, infectando, no processo, todos os que com eles contactavam. Os efeitos foram rápidos e devastadores.
Em Constantinopla, os cadáveres eram empilhados e queimados, aos montes, por falta de espaço.
Saba-se também que foram os mercadores Venezianos a trazê-la do oriente para toda a Europa, por via marítima. De porto em porto, a Peste era espalhada pelos ratos que enxameavam os sombrios e húmidos porões dos barcos onde havia alimento em abundância. Apesar da  "má-fama ", estes não eram no entanto os agentes transmissores da epidemia. Apenas a transportavam, servindo de intermediários no processo infeccioso.
A doença transmitia-se aos humanos pelas pulgas que infestavam o pêlo dos ratos, que no seu constante vai-vem à procura de alimento, transportavam para todo o lado as pulgas infectadas com a bactéria da Peste.
 
       
As primeiras vítimas eram os próprios ratos. Uma vez mortos, estes eram abandonados pelas pulgas que faziam dos humanos os seus novos hospedeiros. A epidemia alastrou na medida da frequência e da rapidez das trocas comerciais feitas por mar, com o oriente, que na época se começavam a multiplicar por todo o Mediterrâneo.
Alguns navios eram encontrados à deriva sem um único sobrevivente a bordo. O pânico instalou-se rapidamente. Era preciso, em primeiro lugar, encontrar os responsáveis. A purificacão pela fogueira ganhava um  sentido muito mais literal. Claro que a mais ímpia das doenças só podia ser coisa de ímpios. Judeus e mouros foram, como de costume, feitos bodes expiatórios, mas desta vez em companhia dos leprosos.
Por todo o lado, o mundo feudal parecia ruir. A Peste Negra apressou o seu fim.
 
A primeira consequência, a nível económico, foi uma diminuição acentuada da mão-de-obra disponível, que atingiu sobretudo e em primeiro lugar, a agricultura e os que dela viviam. Pouco antes da Peste atingir a Europa, secas e inundações sucessivas tinham arruinado, por vários anos, as colheitas de extensas regiões, diminuindo drasticamente os rendimentos da Nobreza e do Clero, e condenando à fome grande parte dos camponeses.
Assim, os campos, outrora férteis, estavam agora ao abandono, pois os que tinham sobrevivido à fome e à Peste eram poucos e exigiam melhores salários e condições de arrendamento, para continuarem a trabalhar as terras da Nobreza e do Clero. Os laços de dependência em que assentava o poder feudal começavam a romper-se.
Muitos foram, assim, os que fugindo à servidão e à miséria abandonaram os campos, procurando nas cidades ocupação no comércio e nos ofícios.
  
Mas, apesar da relativa  prosperidade da cidade, nem todos o conseguiam. Ao excesso de oferta de mão de obra, somava-se a falta de experiência ou conhecimentos desta gente do campo para se adaptar a novas actividades como o comércio ou o artesanato. As consequências não demoraram a fazer-se sentir com o aumento do desemprego, mendicidade e insegurança. Esta fuga em massa do campo para a cidade, onde as condições de higiene eram muito más, contribuiu também para que a Peste se espalhasse aí de forma extremamente rápida.
Foi, de facto, nas cidades e junto dos mosteiros e abadias que a Peste fez mais vítimas. Assistiu-se, então, a um movimento no sentido contrário.
Agora, eram os ricos que fugiam da cidade e procuravam protecção nas suas propriedades rurais.
Mas a peste estava por todo o lado.
   
Os burgueses, nobres e clérigos que ficavam, sendo obrigados a deslocarem-se pelas imundas ruelas dos burgos, protegiam-se da cabeça aos pés, com compridas vestes, usando óculos, luvas e máscaras pontiagudas, em bico de pássaro, desenhadas para facilitarem um maior afastamento físico face aos doentes ou clientes.
A fé, o consolo dos familiares e a ajuda dos monges eram o único alívio dos que adoeciam.
Quanto ao resto da população, protegia-se evitando o contacto com os infectados e marcando com uma cruz a morada destes, que aí permaneciam em “ quarentena”…
Para terminar, é falso que a Peste Negra ou Bubónica esteja erradicada.
Na verdade, a bactéria causadora da infecção está apenas contolada, confinada a determinadas regiões cujas populações foram entretanto adquirindo algumas imunidades. E nós estamos mais bem preparados para lhe resistir.
A MORTE NEGRA - EVANESCENCE