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HISTORIAR N

«Para suportar a sua própria história, cada um acrescenta-lhe um pouco de lenda.» Marcel Jouhandeau

HISTORIAR N

«Para suportar a sua própria história, cada um acrescenta-lhe um pouco de lenda.» Marcel Jouhandeau

CONTOS E LENDAS

O MITO DE ÉDIPO E  DA  ESFINGE 

  

Não há, que me lembre,  forma de arte que não se tenha servido do Mito de Édipo e da Esfinge como fonte de inspiração. A Literatura, o Cinema, a Ópera, a Música, o Teatro e mesmo a Ciência, através de Freud e da psicanálise, prestaram-lhe o devido tributo. É uma metáfora brutal que nos fala de forças e elementos que não controlamos e ditam a nossa sorte. Uns nascem para a comédia, outros para a tragédia. Édipo foi um personagem trágico. A sua história, passada em Tebas, foi mais ou menos esta...

Após o assassinato do rei Laius e do príncipe herdeiro, o trono de Tebas foi ocupado pelo seu cunhado, Creonte II. Foi então que nos primeiros tempos do seu reinado, Tebas foi assombrada e devastada pela presença de uma fabulosa criatura a quem chamavam Esfinge. Era uma enviada de Hades, o Deus grego dos infernos. A criatura articulava uma cabeça de mulher num corpo de leão com asas de águia.

 Por onde passava tudo destruía, devorando campos e pessoas. Nos intervalos, passava o tempo a cantarolar uma estranha ladainha, que afirmava ter aprendido com as Musas do Olimpo. Esse cantarolar continha um desafio. Pois tratava-se de um enigma que ninguém até à altura tinha conseguido decifrar. Depois de muito cantar e destruir outro tanto, a Esfinge, sentada no  alto de um monte,  fez a Creonte " uma proposta que este não podia recusar. " Se algum tebano resolvesse o enigma, ela partiria e a paz regressaria a Tebas. Todos os que falhassem seriam devorados e a devastação continuaria.

 

Desesperado, Creonte decidiu que daria a mão de sua filha a quem fosse capaz de resolver o problema. O enigma estava contido na seguinte pergunta:

" Qual é a coisa qual é ela, que tem quatro pernas pela manhã, duas à tarde e três à noite?" Foram muitos os candidatos a arriscarem a vida e todos eles morreram. A esperança era já pouca quando Édipo, sabendo do desafio, se apresentou em Tebas, depois de uma jornada atribulada. Entre outros episódios, matou pelo caminho, sem saber que se tratava do seu pai, um homem de nome Laio com quem se tinha cruzado e o mandara sair da frente.

Édipo não sabia esta e outras coisas, como mais à frente veremos... Mas agora ali estava ele a proclamar convictamente saber que resposta dar à Esfinge E esta era bastante simples: o Homem.

Só ele tem quatro patas, quando gatinha em criança, serve-se de duas para andar na idade adulta, e de três quando é velho e é obrigado a usar uma bengala.

A Esfinge cumpriu a sua parte do acordo. Ao ouvir as palavras de Édipo, lançou-se de um precipício. Um sentimento de alívio e uma nova esperança encheram os corações dos tebanos.

  

Édipo veio, mais tarde, a tornar-se rei de Tebas e, tal como os oráculos tinham previsto, no seu trágico e atribulado percurso viria a casar,  sem o saber, com sua própria mãe, a rainha Jocasta, pois Édipo não tinha sido criado pelos seus pais naturais. E foi numa situação de desespero, numa altura em que a peste devastava Tebas, que a verdade lhe foi revelada pelos oráculos, a quem tinha recorrido em busca de melhores novas.

Sentindo-se culpado por não ter reconhecido o pai no homem que tinha morto e a mãe na sua amante, Édipo cega-se, furando os olhos, depois de ter amaldiçoado os seus filhos, enquanto sua mãe se suicida.

Deposto e substituido por Creonte, a quem antes tinha valido,  Édipo pediu-lhe então que o exilasse, suplicando-lhe ainda que tomasse conta dos seus filhos. E assim foi...   

 Sófocles pegou no Mito e transformou-o em Literatura e Teatro, fazendo-o chegar até nós através da sua obra prima " Édipo-Rei". Mas foi Szigmund Freud, o pai da psicanálise, quem popularizou o seu nome com a criação da Teoria das Neuroses, na qual o  " complexo de Édipo " desempenha um papel central. Este seria um conflito que todos nós enfrentamos enquanto crianças, ao entrarmos na " fase fàlica ", consistindo numa atracção sexual inconsciente do filho pela mãe acompanhado por um sentimento de  repulsa face ao pai que pretende substituir. No caso das´raparigas usa-se a expressão " complexo de Electra ".

 Da superação deste conflito, dependeria em grande parte a nossa futura sanidade mental .